Casarões antigos no Rio abrigam história do design

Além do design, os casarões servem de espaço para rodas de choro e ensaios de peças

Dois casarões, construídos em 1908, e que são integrados na Rua professor Gabizo, 289, no bairro da Tijuca (RJ), respiram, inspiram e transpiram cultura e arte.

Casarões da Tijuca

Um dos casarões guarda a história das artes gráficas, por ser a sede de uma das cinco empresas do mundo que ainda mantêm a tradição de trabalhar artesanalmente com impressão em litogravura (técnica que envolve a criação de marcas ou desenhos realizados sobre uma matriz de pedra calcária).

Já o outro, preserva o pé-direito de oito metros de altura, além de tijolos de demolição originais. Ao mesmo tempo, ele também é lar de uma família, e ainda um espaço de criação cênica, onde ocorrem ensaios de peças teatrais como “Billdog 2”, em cartaz até amanhã (1), no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e por fim, rodas de choro semanais.

De um lado do imóvel dois em um, Guilherme Rodrigues, de 74 anos, coordena a Lithos Edições de Artes, criada em 1973. Ele tem passe livre para abrir uma porta e passar para o lado vizinho. Não apenas para visitar seu filho, Gustavo Rodrigues, de 43 anos, residente do local, como para praticar seu hobby: fazer música nas tardes de quinta-feira. Segundo Guilerme:

“Sou tijucano desde que nasci. Quando conheci a minha primeira mulher (morta em 2011), mãe dos meus filhos (Guilherme também é pai do ator e mágico Gabriel Louchard), ela morava no casarão onde a minha gráfica funciona até hoje. Vivo há anos na Zona Sul, mas estou na Tijuca todos os dias para trabalhar, fazer compras e me sentir em contato com a arte.”

Apresentações artísticas

No casarão de Gustavo, está situado o espaço onde acontecem espetáculos, Guilherme aproveita para receber os amigos e juntos eles tocam clarinete, cavaquinho, flauta e violão de sete cordas. O patriarca ainda afirma:

“Ser artista é uma teimosia. Estamos teimando há anos, e ainda tenho o sonho de transformar a Lithos numa espécie de centro cultural.”

O sonho não virou realidade por enquanto. Porém, já começa a ganhar forma, pontua Guilherme:

“Eu recebo universitários, estudantes de Design, para visitarem as nossas instalações, a fim de que possam ver de perto a origem das artes gráficas. Consegui reunir um acervo muito grande, com pedras litográficas bem antigas, não só com obras minhas, mas também do meu pai, que começou a trabalhar na área em 1916 e, claro, já usava essa técnica. Eu gostaria de democratizar o acesso a essa coleção particular, tornando-a pública de alguma forma. Mas não tenho recursos. Estou pensando numa forma de fazer isso, porque a gráfica teria que virar um instituto ou algo parecido. Um pouco da história do design brasileiro está aqui.”

Ensaios e rodas de choro nos casarões

Gustavo, que também é ator e um dos destaques do elenco do espetáculo “Billdog 2”, reside em um dos casarões desde 2009. Além das peças, lá também acontece as rodas de choro. E ele ainda faz o papel de vizinho de porta do acervo que é o orgulho da família Rodrigues, e não esconde incentivar os planos do pai:

“Sinto uma responsabilidade enorme de preservar esse material. Mas não penso em fazer daqui um museu, onde as pessoas só observem as matrizes litográficas e descubram suas histórias. Imagino uma escola, uma oficina, para que o público possa interagir com as peças e produzir desenhos e marcas, exatamente como no passado.”

Ao contrário do que possa se imaginar Gustavo não se incomoda em morar em um endereço que também é espaço de arte:

“Nasci no meio dessa gente doida de artes plásticas (risos). Eu me impregnei dessa natureza artística desde criança. Não à toa, também sou músico, toquei em uma banda chamada The Mentes. Nessa família, somos todos artistas. Com muita honra!.”

Fonte: O GLOBO

*Foto: Divulgação / Pedro Teixeira / Agência O Globo