Maratonas e sprints literários cresceram em meio à pandemia

Maratonas e sprints literários se tornam verdadeiros atletas do setor

As maratonas e sprints literários se popularizaram durante a pandemia. Muitos desses eventos ocorreram em transmissões ao vivo pelas redes sociais.

Maratonas e sprints literários

Seja por meio de desafios individuais ou coletivos de leitura, a prática de cultura das maratonas e sprints literários mostram que a relação com os livros pode ir muito além de uma atividade solitária e tranquila.

Tal evento envolve metas, resultados, performances, além de estímulo à leitura e trocas de experiências. E ainda serve de incentivo a editoras, clubes de livros e influenciadores digitais, com o propósito de criarem engajamento com seu público.

Para o booktuber Victor Almeida, de 28 anos, do Geek Freak:

“Todo influenciador de livros que eu conheço faz algum tipo de desafio com os seus seguidores.”

O canal possui mais de 130 mil assinantes.

“É algo que aumentou exponencionalmente durante a pandemia, em especial entre os mais jovens.”

Tiros curtos

Por outro lado, se as maratonas envolvem resistência para longas distâncias, os sprints funcionam como tiros curtos. É o que diz a influenciadora Barbara Krauss (@bdebarbarie no Instagram). Ela leu o seminal “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, em duas lives dedicadas à obra. Com um público de quase 40 pessoas online, ela utilizou o chat oara fazer comentários como “divertido”, “dinâmico” e “vou começar a estudar junto com essa galera pra eu nao me sentir alone nos estudos”.

Ela ressalta:

“O público mais velho tem certo precoceito com os sprints, porque acha que a tela ligada tira o foco. Eu mesmo acabei dando uma brecada nos sprints, pois percebi que não estava prestando atenção como devia no que estava lendo. Acho que funciona mais com livros leves, como HQ’s.”

Longe das câmeras

Entretanto, maratonas e sprints literários estão longe de ser as únicos modalidades de desafio. Ao contrário, a maior parte delas ocorre longe das câmeras. Isso porque basta juntar alguns amigos com uma meta em comum.

Neste mês, o projeto Dezencalhados, dos influenciadores Cosme Guedes, Sabrina Carvalho e Bia Sousa (respectivamente, @Shooting Books, @surtoliterario e @Berco.literário no Instagram) foi lançado. A ideia é propor uma leitura, em dez meses, de dez livros encalhados na estante. Além disso, os participantes trocam suas experiências em um grupo de WhatsApp do projeto.

Leitores melhores

Contudo, muitos adeptos da prática acreditam que este aspecto coletivo é capaz de tornar os leitores melhores.

É o que pensa a blogueira Ana Clara Magalhães, do Roendo Livros. Em abril, ela participou de um desafio da Companhia das Letras, que propunha completar cinco livros nacionais da editora em até sete dias. Para ela, a melhor coisa é a troca com outros participantes ao longo do projeto:

“Falamos sobre que gostamos e não gostamos, a construção do enredo, dos personagens… E nossas dificuldades, é claro, acabam entrando nesse pacote. Tentamos ajudar uns aos outros da melhor forma possível, sempre.”

Resta um temor

No entanto, especialistas em leitura diz que resta um temor. E é sobre a quantificação da leitura. Ou seja, se ela se sobrepõe à sua qualidade, se há redução da experiência a um mero acúmulo.

Todavia, muitos participantes chegam a fazer calendários e a contabilizar o número de páginas que completam por hora, diz Krauss.

“Muita gente vem me perguntar quantos livros é preciso ler para se tornar um leitor.”

No último mês ele devorou 52 páginas por dia.

“Mas a verdade é que eu me tornei leitora no primeiro livro que abri.”

Para a professora e crítica literária Ana Crelia Dias, os desafios dão à leitura uma abordagem consumista, muita própria dos dias de hoje. Mas ela não vê isso como algo negativo.

Posição das editoras

Por fim, as editoras também reconhecem este fenômeno. De acordo com o Publisher da Companhia das Letras, Otávio Marques da Costa, os desafios são um dos melhores recursos para contornar as livrarias fechadas, além da impossibilidade de lançamentos presenciais.

Apesar de ser um mecanismo que funciona bem na pandemia, ele destaca outro ponto:

“Mas, como é um fenômeno espontâneo, que partiu primeiro dos leitores, as editoras não podem forçar a barra. Tem que ser feito de forma bem amarrada, sem que pareça puramente mercadológico.”

*Ilustração: Divulgação/ André Mello