Mostra sobre Antonio Dias segue até março no MAM-SP

Exposição individual de Antonio Dias tem curadoria de Felipe Chaimovich e apresentas as diferentes fases da produção do artista a partir de seu próprio acervo

Desde novembro de 2020 acontece no MAM-SP a mostra individual “Antonio Dias: Derrotas e Vitórias”. A exposição, que originalmente ocorreria em maço do ano passado e foi interrompida pela pandemia, revela um importante e representativo panorama do trabalho de um dos artistas mais consistentes da arte brasileira. Sua produção é marcada por seu engajamento social e político, além de sua ironia e sensualidade.

Mostra Antonio Dias

No entanto, vale ressaltar que a retrospectiva não é algo qualquer. Dias que faleceu em agosto de 2018, deixou um legado muito bem cuidado e organizado. Isso porque ao colecionar seu próprio trabalho, ele se certificou que obras importantes de sua história artística ficassem juntas. O curador Felipe Chaimovich explica:

“Ao ver essas obras nesse conjunto, colecionado pelo próprio artista, é possível perceber a consistência com que o Antonio Dias atravessou 60 anos criando uma arte que esteve o tempo inteiro engajada com o seu próprio tempo.”

Cronologia

Sendo assim, a mostra é organizada cronologicamente. Mas de trás para frente. Com isso, o público é recebido pelas telas que Dias pintou nos anos 2000. Porém, antes o visitante passa por um boneco fálico, composto por um duplo tridente, que se move a partir de um sensor de presença, assustando muitos e divertindo outros.

A exposição acaba no começo da carreira dele, onde são apresentadas abstrações do jovem artista realizadas logo após seu estudo inicial com o gravurista Oswaldo Goeldi. Na sequência, o público pode conferir a colorida e potente produção dos anos 1960. Antonio Dias foi um dos integrantes da chamada Nova Figuração brasileira. Este movimento reuniu artistas que produziam intensamente naquela década.

Anos 1960

Todavia, são trabalhos marcados por uma resistência às tradições de pinturas abstratas e geométricas que protagonizaram em mostras e publicações do período. Entretanto, apesar do interesse pela estética da pop art americana e das histórias em quadrinhos; pelos elementos populares; e, pela cultura de massa, as experiências dos artistas da Nova Figuração ou “pop arte brasileira” foram completamente diferentes das americanas. Antonio Dias e seus companheiros estavam impactados pela ditadura militar e pela opressão política. Por isso, criaram obras de forte teor político.

Gravuras

Ainda nesta fase ficam evidentes as criações em formato de gravuras, e os quadros são deixados de lado. Obras em relevos e formas espaciais ou ambientais eram recorrentes, resultando na chamada Nova Objetividade Brasileira. Chaimovich acrescenta:

“Antonio Dias teve uma grande importância na história da arte brasileira na medida em que ele introduziu questões éticas, políticas e sociais, influenciando uma geração que até então estava centrada em discussões formais. Ele direciona o debate estético para questões prementes da história do Brasil, como o golpe militar de 1964.”

Uma obra importante do período que está na mostra é “Nota sobre a morte imprevista”, feita no ano do golpe militar no Brasil, e citada por Hélio Oiticica como um “antiquadro” que apresenta uma nova abordagem do problema do objeto, não subtraindo questões sociais em meio às formais.

1968

Em contrapartida, em 1968, Dias de mudou para Paris e na sequência, para Mião. Esta mudança fez com que se aproximasse de expoentes da chamada arte povera e do conceitualismo europeu. Resultado: passou a produzir obras mais rígidas, e em preto e branco. Isso transformou o trabalho do artista em algo mais enigmático, com palavras e frases significativas.

Outras obras em destaque

A obra “Anywhere is my land”, de 1968, mesmo ano do AI5 está entre os destaques da mostra. Mas a partir de 1971, já vivendo na Itália, ele investe na produção de filmes.

Outro ano decisivo em sua vida é 1977, que é quando Antonio Dias vai para o Nepal e começa a trabalhar na confecção de papéis. Há uma instalação sobre esta época com papéis feitos por ele no país asiático.

Nas décadas seguintes, graças à confecção de papéis, ele começar a fazer pintura explorando pigmentos minerais como a malaquita ou em carbono, e também até com veneno, “que tem uma cor própria”, brincava o artista.

O título da exposição foi pensado a partir da videoinstalação “Derrotas e vitórias (para Bento)” com 3 canais criada pelo artista em 2006.

Serviço

A mostra fica em cartaz até o dia 21 de março, no MAM-SP. O museu fica na Av. Pedro Álvares Cabral, s/n° – Parque Ibirapuera. Para mais informações, acesse o site oficial do MAM.

*Foto: Divulgação