Pandemia gera ao setor de transportes pior ano da história

Após quatro meses do início da pandemia do novo coronavírus, o setor de transportes enfrenta o pior ano da história, que ainda será refletido em 2021.

Segundo revela o Produto Interno Bruto (PIB) do setor, deverá ter uma retração de 7%. Esta afirmação vem de um estudo exclusivo feito pela TCP Partners, empresa de gestão e investimentos. O levantamento aponta que as operações aéreas e o transporte de cargas e passageiros sofreram forte queda a partir de março deste ano, com o início da crise sanitária no país. De acordo com os especialistas o setor de transportes enfrentará mudanças expressivas, além de ter de se reinventar.

O estudo abrange dados do IBGE, que indica queda de 8% na atividade até o mês de maio. Já uma pesquisa da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística revela que a demanda por cargas despencou 45% em abril, e seguiu acima de 40% até o mês seguinte.

Atualmente, a queda apresenta recuo, marcando 24,8%. Isso em função da reabertura da economia. Porém, no caso das linhas aéreas, em maio, o movimento de passageiros registrou forte queda de 90%, como explica Ricardo Jacomassi, sócio e economista-chefe da TCP Partners:

“O setor de transporte e logística sofrerá os impactos da pandemia por muito tempo. Por ser transversal, é necessário que outros setores da economia se recuperem para que as empresas de transporte se restabeleçam.”

Vale ressaltar que o que amenizou um pouco a crise do setor foi a safra recorde deste ano, que impactou positivamente nas transportadoras.

Opção por recuperação judicial

Jacomassi observa também que muitas empresas estão recorrendo à recuperação judicial, a fim de evitar a falência. Com isso, o procedimento suspende temporariamente compromissos com credores até que a companhia se recupere. Portanto, o setor de transportes, nos segmentos de transportadoras de cargas fracionadas e de transportes terrestres de passageiros são as empresas com grande possibilidade de optar por este caminho, afirma.

Opinião semelhante tem o CEO da Ricardo K. da consultoria RK Partners, em relação ao setor aéreo, como sendo um dos mais prejudicados pela pandemia.

No caso da Latam Brasil, a companhia área já aderiu ao pedido de recuperação judicial feito pela matriz chilena nos EUA. A Expresso Pégaso, que já foi uma das maiores no segmento de ônibus do Rio de Janeiro, também entrou com pedido de recuperação judicial.

No entanto, outros ramos da economia provaram que tiveram menos pedidos de recuperação judicial no mês de maio.

Setor de transportes passará por encolhimento

O setor de transportes deverá passar por um encolhimento gerado pela crise que só deve acabar em 2021. O estudo da TCP Partners também aponta que, das 157.365 empresas de transporte de carga no país, ao menos 19,2 mil devem encerrar suas atividades até o próximo ano. No transporte de passageiros, o quadro é similar: das 29.820 companhias atuantes, 4,1 devem desaparecer no período.

Greve dos caminhoneiros

Em 2018, o setor movimentou R$ 256,08 milhões, no mesmo ano da greve dos caminhoneiros. Portanto, isso significa um aumento de 2,2% comparado ao ano anterior. Porém, ainda 6% abaixo do que costumava movimentar antes da recessão começada em 2014. Já em 2019, a expansão foi de apenas 0,2%.

Segundo o levantamento publicado neste mês pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), realizada com 858 empresas de cargas e de passageiros de todos os modais, revela que depois de quatro meses de pandemia, as empresas de transporte ainda enfrentam forte queda de demanda e do faturamento.

Além disso, nem todas estão conseguindo crédito fácil. Sendo assim, muitas delas estão recorrendo a linhas com os juros mais altos do mercado, como cartão de crédito. Todavia, a solução foi para honrar as folhas de pagamento, impostos e também para pagar o diesel dos veículos. Sobre isso o diretor executivo da CNT, Bruno Batista, afirma:

“Estamos trabalhando com um cenário de ano perdido e, como não há melhora quatro meses depois do início da pandemia, teremos reflexos em 2021. É a maior crise da história do setor.”

 Setor de transportes precisa se reinventar

Para Vinicius Picanço, professor de operações do Insper, o setor de transportes terá de se reinventar após a pandemia. Ele diz também que o segmento ainda utiliza pouca tecnologia e depende de muita manipulação humana para carregamento e descarregamento. Isso tudo foi um problema durante a crise sanitária global.

Em contrapartida, nas cadeias logísticas de outros países, a tecnologia vem conquistando mais espaço. Picanço observa que é um segmento que deve crescer, chamado de “logtechs”. Ele ainda revelou que empresas como a Amazon e Uber já estão entrando nesta fatia de mercado.

*Foto: Divulgação/ Edilson Dantas