Rita Lee no MIS: o que esperar da exposição?

Rita Lee no MIS é um desejo antigo, segunda a própria cantora, quando revelou que gostaria de montar uma exposição sobre sua trajetória no Museu da Imagem e do SOM (MIS), em São Paulo. Esta declaração foi dada à revista “Capricho” em 1991.

Rita Lee no MIS

Passados 30 anos, agora a exposição Rita Lee no MIS é uma realidade. A mostra de cultura musical foi aberta ao público ontem (23). Intitulada “Samsung Rock Exhibition Rita Lee”, os fãs poderão conferir de perto itens raros do acervo pessoal da cantora e compositora de 73 anos.

A mostra acontece de terça a domingo, das 10h às 18h, com ingressos a R$ 50 (inteira). Além disso, por conta da pandemia, o MIS vai controlar a entrada. Neste caso, vai liberar grupos de 30 a 60 pessoas a cada 30 minutos. E só será permitido circular pelo museu usando máscaras.

Curiosidades

Como boa capricorniana, a artista é de guardar até “papel de embrulho e barbante”. E este é o grande atrativo da mostra. Isso porque, segundo o diretor artístico Guilherma Samora, mais de 90% dos itens são originais, vindos diretamente do sótão da casa de Rita Lee. E conforme os envolvidos afirmam, “lembra a Disneylândia”. Vale ressaltar que foi o filho João Lee quem teve o trabalho de fazer a curadoria do material, com um recorte temporal que impressiona.

“Esse projeto é um dos mais especiais para minha mãe. Todo material que está aqui são personagens com quem convivi a vida inteira, dentro de casa. Rita é compositora da própria obra, ajudava a desenhar as próprias roupas. Conseguimos mostrar esse filtro interno dela, que transforma o que recebe em um universo dela, colorido, feliz, musical, lúdico.”

Assinados pelo cenógrafo e carnavalesco Chico Spinoza, velho parceiro criativo de Rita, os manequins que expõem figurinos marcantes da carreira da cantora foram especialmente pensados e moldados para a mostra. Ele revela planos para transformar a “amiga louca, cantora, poetisa e estrela” em enredo de carnaval, e quem sabe, para 2023.

Samora, João Lee Spinoza foram unânimes ao reforçar a participação direta de Rita Lee em todas as etapas da montagem da exposição, como guia criativa. Agora só falta ela visitar pessoalmente sua mostra. O filho garante que isso irá acontecer.

Autobiografia

A mostra Rita Lee no MIS realmente faz jus ao nome do museu. Isso porque o material exposto é acima de tudo: audiovisual. Sendo assim, o visitante não sairá de lá sabendo tudo da cantora, e da dissolução dos Mutantes, de suas inspirações para composições históricas até entrar em carreira solo. Absolutamente nada disso! Portanto, antes de ir visitar a exposição, de possível, leia “Rita Lee: Uma autobiografia”, lançada em 2016 pela Globo Livros.

A viagem da mostra é especialmente visual e afetiva. Ao adentrar o MIS, o visitante se depara com lembranças da casa onde Rita cresceu, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Está presente também um frasco de lança-perfume que o pai dela liberava para os filhos quando o Corinthians ganhava. E ainda há um álbum de figurinhas completo do Peter Pan, sua primeira paixão. No mesmo ambiente, voa pelo teto o figurino inspirado no personagem que utilizou na turnê de 1987/1988. E ao fundo, o polêmico traje de Senhora Aparecida que ela vestiu em 1995, sendo excomungada.

Figurinos originais

A lista é vasta:

  • a roupa de bruxa e o vestido de casamento que Rita usava na época dos Mutantes (emprestado por Leila Diniz e nunca devolvido à TV Globo);
  • a Santa Rita de Sampa (ou o traje de sete cabeças), usadas nas capas dos álbuns “Fruto proibido” e “Lança perfume”;
  • o figurino costurado pela mãe de Rita, Chesa, para a turnê “Refestança”, com Giberto Gil;
  • a roupa de presidiária usada no primeiro show após sair da prisão;
  • as diversas roupas que Spinoza desenhou para a grandiosa turnê “O circo” (1982/83), cujo palco giratório também foi recriado pelo cenógrafo;
  • o vestido usado para cantar com João Gilberto e o do casamento com Roberto de Carvalho;
  • a roupa de Chacrinha;
  • e os figurinos assinados pela designer de moda polonesa Barbara Hulanicki, da grife Biba, para a colorida turnê “Babilônia” (1984).

Em contrapartida, também está exposto um item muito importante para a carreira da cantora: a bota que ela roubou da própria butique Biba numa viagem à Londres. Ela representa o período de transição da Rita loira para a ruiva (as perucas servem para guiar o visitante nesta narrativa).

Contudo, ainda há uma raridade que entrou, segundo João Lee, “aos 45 do segundo tempo”. Trata-se do piano da década de 1920 que a mãe de Rita ganhou quando tinha 16 anos. No texto, a cantora conta que “foi através dele que a música entrou na minha alma”.

Manuscritos de letras e carta na prisão

Já na seção sobre a ditadura, além das tantas letras censuradas expostas pela parede e recortes de jornal sobre a prisão, chama atenção ainda uma carta de quatro páginas escrita por Rita Lee. O conteúdo é de quando estava presa e grávida, destinada para Roberto de Carvalho. No texto, ela se mostra incerta sobre quando seria libertada, se diz resignada quanto a dar à luz na cadeia, e tenta pedir para o amor de sua vida não esperar por ela e “fazer o que quiser”.

E tem mais Roberto, evidenciado pelo registro de uma composição “proibidona” dos dois, que foi censurada pela “mensagem erótico sexual”. A canção abre com os versos “Sempre que você quiser se dar pra mim/ Eu prometo ir até o fim/ Mas se você fingir que vai gritar/ Eu prometo que vou parar” — e nunca gravada.

Instrumentos

Outra sala que chamará a atenção de seus fãs é a de instrumentos, que são muitos e marcantes. Todos eles vieram diretamente da casa dela. Em especial, está exposta a guitarra Rute, de 1954, a mais usada Poe ela em shows. Neste ambiente, o visitante pode conhecer uma tecnologia inovadora, a Dolby Atmos, que entrega som em qualidade de cinema a 360º. Segundo João Lee, é a primeira vez que é usada numa exposição brasileira.

Causa animal

Para quem não sabe, Rita Lee é defensora da causa animal (todo material usado na mostra é sintético), de crianças e das artes plásticas. Neste espaço específico, o visitante encontrará várias pinturas e colagens que a cantora fez para nomes como David Bowie, Einstein, Fernanda Montenegro, Elis Regina, Salvador Dalí e Carmen Miranda. Além de uma recente, feira por Rita para o próprio Chico Spinoza.

Por fim, há sua paixão pelos Beatles, representada em desenhos dos quatro músicos de Liverpool feitos à mão em papel de pão.

*Foto: Divulgação/Luccas Oliveira