‘Temos hoje um choque de ausência de demanda’ diz Ricardo K. sobre pandemia

Com a pandemia do novo coronavírus que colocou o Brasil em uma forte crise econômica, o sócio e CEO da consultoria RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, estima que cerca de 500 grandes empresas brasileiras, com faturamento anual acima de R$ 500 milhões e dívidas de mais de R$ 300 milhões, terão de passar por um processo de renegociação. Nos últimos dez anos, Ricardo K., como é conhecido, esteve à frente de 120 reestruturações corporativas e da renegociação de R$ 180 bilhões em dívidas.

Entre as principais reestruturações que cuidou, está a do Grupo X, de Eike Batista, e da Odebrecht, considerada a maior recuperação judicial do país. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Ricardo K. afirma:

“Não descarto que dessas 500, uma centena tenha pedidos de recuperação judicial.”

Pandemia e crise econômica

Para o CEO, os efeitos causados pela imposição do isolamento social pelo governo é um acontecimento “sem precedentes” e que não há como comparar a crises anteriores, como de 2008, por exemplo:

“Temos hoje um choque de ausência de demanda. Setores inteiros da economia tiveram de parar durante meses.”

Setores mais prejudicados

Ricardo K cita a aviação e o entretenimento como os setores mais prejudicados pela pandemia e ainda os relaciona ao que aconteceu no Brasil com o caso Lava Jato, quando companhias de infraestrutura e construção civil perderam de uma hora para outra em torno de 70% a 90% de seu faturamento:

“A diferença é que nós não sabemos quando vai acabar.”

Confira na íntegra os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Em agosto de 2019, o sr. avaliava que pelo menos 800 empresas médias precisariam passar por reestruturação no Brasil. Qual o cenário agora?

O cenário ficou muito mais complicado depois da pandemia da covid-19. Setores inteiros tiveram queda abrupta de faturamento e alguns nunca mais vão voltar a ser o que eram. Das 1.000 maiores empresas brasileiras, 240 foram gravemente afetadas. A situação, que antes estava muito localizada nas empresas médias, agora perpassa todas. Das pequenas, muitas vão desaparecer. As médias ficaram muito doentes e as grandes, que no geral passavam bem, foram gravemente afetadas em vários setores. Em geral, os pequenos empreendedores têm, no máximo, dois meses de caixa para sobreviver. Está havendo uma epidemia no judiciário de pedidos de liminares para o não pagamento de dívidas.

Mais de 500 empresas grandes, com faturamento de mais de R$ 500 milhões por ano e dívida acima de R$ 300 milhões, vão precisar de reestruturação. Monitoramos empresas com dívida de mais de 3 vezes em relação ao Ebitda (geração de caixa, antes de lucros, impostos, depreciação e amortização), muito alavancadas. Não descarto que, dessas 500, uma centena tenha pedidos de recuperação judicial.

Os setores mais afetados e com grandes incógnitas sobre seu futuro – e essa é uma grande diferença – são aviação, entretenimento, restaurantes, turismo e hotelaria. Com as barreiras impostas, algumas empresas aéreas tiveram 70% de queda no faturamento. Há um segundo grupo muito afetado, que são empresas de óleo e gás e usinas de açúcar e álcool. Elas sofreram um problema duplo, com a pandemia seguida da queda de preços do petróleo. Petrobrás e Raízen já estão avisando às usinas que vão parar de comprar entre 50% e 70% da produção. É um choque de demanda gravíssimo. No varejo, o aumento do faturamento com comércio eletrônico não compensa a queda nas lojas físicas. É um setor com margem muito baixa e que deve enfrentar grandes problemas. Têxtil, logística, construção e engenharia, empreendimentos imobiliários e venda de veículos também.

Hoje, o pedido de recuperação judicial não funciona bem para uma empresa pequena. É um processo caro. Estamos discutindo com juristas como permitir uma recuperação judicial de empresas de pequeno porte. Muitas vão fechar. Nas médias e grandes, daqui a três meses, vamos ver uma enxurrada de pedidos de recuperação judicial.

Qual a diferença da crise provocada pelo coronavírus e de anteriores, como a de 2008?

A única analogia possível é com a crise de 1918 (gripe espanhola), que ocorreu num mundo não conectado. Nunca tivemos crise parecida. A crise do Lehman Brothers (2008) não é igual. Temos hoje um choque de ausência de demanda. Por uma decisão dos governos, setores inteiros da economia tiveram de parar durante meses. A única coisa parecida que tivemos no Brasil foi a Lava Jato no setor de infraestrutura e construção, quando as empresas perderam seu principal cliente, o governo, e tiveram de se adaptar de uma hora para outra a perder 70% a 90% de seu faturamento. A diferença agora é que nós não sabemos quando vai acabar.

Neste momento, há pela parte dos credores, em geral, o reconhecimento de que essa é uma situação muito grave e sem precedentes. Quando os pleitos são legítimos, os credores estão abertos a negociar e, em geral, estão postergando os vencimentos das dívidas, com ou sem auxílio judicial. Haverá uma segunda etapa, na qual essas postergações vão começar a machucar os balanços dos bancos.

Resolvido o caso Odebrecht, que será nas próximas semanas, os casos (de dívidas problemáticas) eram pulverizados. Agora, será uma situação de inadimplência estrutural da economia. Dentro de três a seis meses, quando houver maior visibilidade de quão dura foi a pandemia, o bancos vão ter de endurecer de novo as negociações. Aí sim virá um tsunami de pedidos de recuperação judicial.

Apesar de ir na direção certa, o pacote (de ajuda) do governo tem dois grandes problemas. O primeiro é que países desenvolvidos, sem a inequidade social do Brasil, liberaram na média entre 8% e 12% do PIB para soluções de diminuição da angústia econômica. Aqui, não chega a 5%. Independentemente da ideologia, o Estado tem de atuar. Aí vem o segundo problema do remédio brasileiro: o País tem hoje um governo com aspiração liberal, com dificuldade de entender como ser intervencionista numa crise.

O banco público, neste momento, é o grande instrumento de distribuição de renda e equidade social. A grande empresa tem mais acesso a crédito porque tem garantia para dar. Pode faltar dinheiro para o pequeno e médio empresário. É aí que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e os bancos públicos podem ajudar muito. Criar critérios de pontuação de crédito e fazer isso em massa com bancos repassadores, sendo que o risco de crédito fica no governo.

O BNDES tem de estar preparado. Queriam terminar com a BNDESPar, seu braço de participações, mas num momento como esse pode ser necessário mantê-lo como indutor de política econômica para as empresas médias e grandes. São políticas transitórias de remediação para fazer contenção da crise. Precisa usar tudo. Atuar entrando (como acionista) em outras empresas e eventualmente capitalizando aquelas em que já está. Ouso dizer que mais da metade das empresas em que a BNDESPar é sócia não consegue captar mais dívida. É uma questão de estrutura de capital: será preciso botar mais equity.

Com a recessão global à vista, haverá estrangeiros dispostos a comprar empresas em crise? Teremos uma onda de fusões e aquisições pela frente?

Os mais combalidos pela crise serão fagocitados pelos menos combalidos. Haverá um grande movimento de consolidação. Quanto aos estrangeiros, países em desenvolvimento vão sofrer mais. A desvalorização dos ativos no Brasil será maior que em outros mercados. Alguns fundos já estão até nos procurando com interesse em olhar oportunidades de ativos baratos aqui.

Fundos estrangeiros de special situation (situações especiais, voltados a empresas com problemas na estrutura de capital) e fundos de empresas em dificuldades. Os grandes investidores institucionais do Brasil, os fundos de pensão, não estão preparados para esse movimento. E os bilionários brasileiros vão sair lambendo suas feridas. Alguns fundos familiares já perderam de 20% a 40% (na crise). Não vão entrar em nada de altíssimo risco.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Entrevista com Ricardo K.

*Foto: Divulgação